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maio 15, 2008

Sob o olhar



Subo no telhado tão rápida quanto um gato
alí quieta dá para contar o tempo
costuro meias de seda de cores pálidas
coloco água do café para ferver
arrasto móveis, mexo gavetas
espalho as estrelas guardadas há tanto tempo
(não perderam seu brilho)
reviro a mesa
espanto os males em um canto adormecido que
de tão longe sopra como um lamento
espio em direção as esquinas
espreito idas e vindas, altos e baixos
encontros e desencontros
observo a chuva que cai em gotas cintilantes
escorrendo frias nas vidraças dos arranha-céus
escuto gritos na noite, choro de criança
vida que nasce, vida que transforma
vida que dá sentido a outra vida
vida que se vai...
continuo costurando meias de seda...
penso no mês de fevereiro
penso no mar
trago em mim o sol
o esplendor da alma
a vontade de amar...
subo de novo no telhado
tão depressa quanto um gato vadio
Subo o telhado
para espiar...
(Lu Barros)




maio 11, 2008

Mãe das mães


Sede como MARIA - Mãe de Jesus

- Bem Aventurada


Bem aventurada a mulher que cuida do próprio perfil interior e exterior, porque a harmonia da pessoa faz mais bela a convivência humana.


Bem aventurada a mulher que, ao lado do homem, exercita a própria insubstituível responsabilidade na família, na sociedade, na história e no universo inteiro.


Bem aventurada a mulher chamada a transmitir e a guardar a vida de maneira humilde e grande.

Bem aventurada quando nela e ao redor dela acolhe faz crescer e protege a vida.


Bem aventurada a mulher que põe a inteligência, a sensibilidade e a cultura a serviço dela, onde ela venha a ser diminuída ou deturpada.


Bem aventurada a mulher que se empenha em promover um mundo mais justo e mais humano.


Bem aventurada a mulher que, em seu caminho, encontra Cristo: escuta-O, acolhe-O, segue-O, como tantas mulheres do evangelho, e se deixa iluminar por Ele na opção de vida.


Bem aventurada a mulher que, dia após dia, com pequenos gestos, com palavras e atenções que nascem do coração, traça sendas de esperança para a humanidade.

G.Quablini

maio 06, 2008

Estrela da manhã,por Manoel bandeira


"Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.
Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d´alva
Rainha do mar.
Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar".


"(Cantiga; Estrela da Manhã)

abril 08, 2008

Exclusividade, por Edson Marques



são de amor, naturalmente,

e feitos por mim quando me espanto

no meu canto encantador.


Certos poemas eu escrevo com os olhos

nos teus olhos, meu amor;

outros, muito longe de você.

A maioria,

com meu coração ainda pendente,

pulsando no peito de um amor

que às vezes encontrei

nos caminhos desta vida,

por acaso e de repente.


Algumas das poesias

eu as te fiz diretamente,

outras foram feitas para amores

diferentes,

mas depois eu as trouxe até aqui

— para você, naturalmente.


Muita coisa bela eu sinto por você

enquanto ainda estou colado

no corpo amante da outra,

suspirando de amor também por ela,

alegremente.

E sei também que muitas coisas

que hoje você diz

já foram ditas para outros

— mas isso não lhes tira

a beleza e a semente.


Sei que essas palavras de amor

se repetem entre nós

com a mesma intensidade,

e muitas das verdades

que dizemos um ao outro

são bem ditas,

simplesmente.
Edson Marques

Multiplicar Amor




Que nossas mãos possam ser portadoras de paz...
De afagos...
De carinho...
Que escorra delas os mais
límpidos sentimentos...
De bálsamos... de alívio...
de força... de luz...
Que possam ser espraiados
na terra árida...
fazendo germinar o amor
entre as pessoas...
Multiplicando
a essência de nós

Fazendo-nos fortes ao meio à tempestade
Deixando-nos ver o sol que nasce...
Que rompe a noite...
Que se faz dia...
Que se faz belo...
Que se faz vida!
Que se chama amor.


abril 06, 2008

Teço em tear de espuma, por Mel


Teço em tear de espuma
Em entrelinhas de bruma
Os pontos cardeais
Escrevo
Ao som do murmurar das ondas
Nas águas remexidas espirais
Nesta Baia Gambôa, fruta proibida
Fruta perdida, caída … tombada,
De pele macerada, ferida.

Escrevo em doiradas areias,
Mãos cheias de letras pequenas…
São, prosas, são rosas … poemas.
São rimas … são compostas,
Compotas de agridoce frutas …
Mordidas, rasgadas … ausentes,
Em bocas dormentes, na angustia
Da ausência de um beijo…

Letras … na angustia sofrida,
De um beijo de uma boca palavra,
Terra árida, deserto de água lisa,
De charrua de lavra…
Terra… gretada, rasgada, estirada,
Em sulcos muros de pranto …

Escrevo e inscrevo nos ventos amenos,
Todos os signos, sons de mim e do mar,
Palavras … palavras apenas…
Sons contidos, de todas as marés,
Mãos postas em oração, num acto de fé…

Inscrevo sombras que imploram
E choram … espelhadas em mim,
A dor e o silêncio, do gesto, do abraço,
E, das palavras … amordaçadas,
Na tua boca … teço estas letras,
Tear de espuma …

Escrevo… louca … este segredo,
No dorso de uma gaivota na
Esperança vã de que ela, que atravessa
Os mares e as tempestades e,
Regressa a esta praia todos os finais de tarde,
Seja o exemplo para quem, tem
Como eu … da vida medo!

março 29, 2008

" Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto,
Mesmo quando a situação não for muito alegre...
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...
E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim
quando fecha os olhos,
que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras,
alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo,
que abusa demais dos bons sentimentos que a vida proporciona,
que dê valor ao que realmente importa,
que é meu sentimento.... e não brinque com ele.
"***(Mário Quintana)*

março 26, 2008

Tecendo estrelas de VAN GOGH, Por Bárbara Lia

Tela de Vivent Van Gogh - Noite Estrelada
Estrelas escorriam da tela,
na solidão do museu.
Aparei gotas de céu em minhas mãos.
Enovelei-as.
Possui por um tempo,
Estrelas abrasadas de loucura
e o azul mais azul que pode o azul ser.


Museu de Nova Iorque
em delírio.
Corre-corre. Alarmes. Vigias.
Não revistaram minhas mãos.
Um céu enovelado que me aquece
e apaga – primaveras sem teus beijos,
invernos de angústias.


Teci um manto azul
de estrelas emaranhadas,
um manto enfeitiçado.
Das estrelas da noite do artista.
Tenho mãos de fada.
e tenho tanto amor,
quanto estas estrelas deslumbradas.


Quando chegar aquele que amo.
Com seus olhos
que são para mim, música;
e para outros, mel.
Quando ultrapassar a escura porta
e se quedar no branco leito.
Eu o cobrirei com o céu.

março 07, 2008

Um dia branco



Dai-me um dia branco,

um mar de beladona

Um movimento Inteiro,

unido,

adormecido

Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme

Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas

Que ao olhá-las me pareça

Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.


(Sophia de Mello Breyner Andersen)

março 05, 2008

Canção do dia de sempre, por Mário Quintana


Tão bom viver dia a dia...A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos

Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos

Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas...


março 04, 2008

Gosto de gente com a cabeça no lugar,
de conteúdo interno, idealismo nos olhos e dois pés no chão da realidade.
Gosto de gente que ri, chora, se emociona com um simples e-mail,
um telefonema, uma canção suave, um bom filme,
um bom livro, um gesto de carinho, um abraço, um afago.
Gente que ama e curte saudade, gosta de amigos, cultiva flores, ama os animais.
Admira paisagens, poeira e chuva.
Gente que tem tempo para sorrir bondade, semear perdão, repartir ternuras,
compartilhar vivências e dar espaço para as emoções dentro de si,
emoções que fluem naturalmente de dentro de seu ser!
Gente que gosta de fazer as coisas que gosta,
sem fugir de compromissos difíceis e inadiáveis,
por mais desgastantes que sejam.
Gente que colhe, orienta, se entende, aconselha,
busca a verdade e quer sempre aprender,
mesmo que seja de uma criança,
de um pobre, de um analfabeto.
Gente de coração desarmado, em ódio e preconceitos baratos.
Com muito AMOR dentro de si.
Gente que erra e reconhece, cai e se levanta, apanha e assimila os golpes,
tirando lições dos erros e fazendo redentoras suas lágrimas e sofrimentos.
Gosto muito de gente assim como VOCÊ
e desconfio que é deste tipo de gente que DEUS também gosta!


fevereiro 29, 2008

Presença, Mário Quintana


É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale

sutilmente, no ar, a trevo machucado,

a folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela

e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces com o teu retrato...

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

fevereiro 04, 2008

Luis Gonzaga


" Quando eu vim dos sertão,

seu moço do meu Bodocó

a malota era um saco

e o cadeado era um nó

só trazia a coragem e a cara

viajando num pau de arara

eu penei,

mas aqui cheguei... '

Vento forte da África, por Solano Trindade



Tem gente com fome

- Trem sujo da Leopoldina

correndo

correndo

parece dizer

tem gente com fome

tem gente com fome

tem gente com fome

Piiiiii

Estação de Caxias

de novo a dizer

de novo a correr

tem gente com fome

tem gente com fome

tem gente com fome

Debaixo do tamarindo, por Augusto dos Anjos

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!


Hoje, esta árvore de amplos agasalhos
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da flora brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!


Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,


Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade,
A minha sombra há de ficar aqui!

"Chope",Carlos Souto Pena Filho


Na avenida Guararapes,

o Recife vai marchando.

O bairro de Santo Antonio,

tanto se foi transformando que,

agora às cinco da tarde,

mais se assemelha a um festim.

Nas mesas do Bar Savoy,

o refrão tem sido assim:

São trinta copos de chope,

são trinta homens sentados,

trezentos desejos presos,

trinta mil

sonhos frustrados

O cão sem plumas", João Cabral de Melo Neto


(...) Aquele rio

era como um cão sem plumas.

Nada sabia da chuva azul,

da fonte cor de rosa,

da água do copo de água,

da água do cântaro,

dos peixes de água,

da brisa na água.

Sabia dos caranguejos

de lodo e ferrugem.

Sabia da lama como de uma mucosa. (...)

Na paisagem do rio

difícil é saber onde começa o rio;

onde a lama começa no rio;

onde a terra começa da lama

onde o homem, onde a pele começa

da lama; onde começa o homem

naquele homem.

sobre o Recife, por Capiba.


""Recife cidade lendária

das negras de engenho cheirando a bangüe..."

Evocação.por Manoel Bandeira


Rua da União...

Como eram lindos os nomes das rua da minha infância

Rua do Sol (Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)

Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...

... onde se ia fumar escondido

Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...

... onde se ia pescar escondido

Capibaribe-Capibaribe

Lá longe o sertãozinho de Caxangá

Banheiros de palha

Um dia eu vi uma moça nuinha no banho

Fiquei parado o coração batendo

Ela se riu

Foi o meu primeiro

alumbramento
Manoel Bandeira



ruas e praças do recife, Clarice Lispector

“Como se enfim o mundo se abrisse de botào

que era em grande rosa escarlate.

Como se as ruas e as praças do Recife

enfim explicassem para que tinham sido feitas.

Como se vozes humanas enfim cantassem

a capacidade de prazer que era secreta em mim.

Carnaval era meu, meu".

“Ai que saudade tenho do meu Recife", Antonio Maria



“Ai que saudade tenho do meu Recife
Da minha gente que ficou por lá
Quando eu pensava,
chorava,
falava,
Contava vantagem,
marcava viagem
Mas não resolvia
se ia
Vou-me embora
Vou-me embora
Vou-me embora
Pra lá”
Frevo N0 2 do Recife

" Tarde no Recife", por Joaquim Cardozo


" tarde no Recife

da ponte Maurício o céu e a cidade......

Recife romântico

dos crepúsculos das pontes

dos longos crepúsculos

que assistiram à passagem dos fidalgos

holandeses....

Recife romântico

do crepúsculo das pontes

e da beleza católica do rio"

A Cidade, por Chico Science


A Cidade
O sol nasce e ilumina
as pedras evoluídas
que cresceram com a força
de pedreiros suicidas
Cavaleiros circulam
vigiando as pessoas
Não importa se são ruins
nem importa se são boas
A cidade se apresenta
centro das ambições
para mendigos ou ricos
e outras armações
Coletivos,
automóveis ,
motos e mêtros
Trabalhadores,
patrões,
policiais,
camelôs
A cidade não pára
a cidade só cresce
O de cima sobe
e o de baixo desce
A cidade não pára.





"...dia nítido lavado pelo Capibaribe, por Mauro Mota

"...dia nítido lavado pelo Capibaribe.o rio ninando o Recife. O Recife criança em seus braços maternos."


A chuva cai sobre o Recife devagar,
banha o Recife,
apaga a lua,
lava a noite,
molha o rio,
e a madrugada neste bar.

A chuva cai sobre o Recife devagar.
A chuva cai sobre o telhado das casinhas de subúrbio,
canta berceuses a doce chuva.
É a voz das mães que estão no canto de onde a chuva agora veio.

A chuva cai,
desce das torres das igrejas do Recife,
corre nas ruas,

e nestas ruas,
ainda há pouco tão vazias,
agora passam,
de capote,
transeuntes do tempo longe,
esses fantasmas de mãos frias.

Mauro Mota
(nasceu no Recife a 16 de agosto de 1911)

NOTURNO, Ascenso Ferreira


Sozinho, de noite,

nas ruas desertas do velho Recife

que atrás do arruado

moderno ficou...

Criança de novo

Eu sinto que sou.

Larga de ser vagabundo, Ascenso!



Poeta, Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira nasceu no município de Palmares, zona da Mata de Pernambuco, a 09 de maio de 1895, filho único do comerciante Antônio Carneiro Torres e da professora Maria Luiza Gonçalves Ferreira. Órfão aos 13 anos de idade, passa a trabalhar na mercearia de um tio e, em 1911, publica no jornal A Notícia de Palmares, o seu primeiro poema, "Flor Fenecida".Começou a colaborar em jornais em 1912, em Palmares e Recife PE. Em 1917 fundou, com Antonio de Barros Carvalho, Antonio Freire e Artur Griz, entre outros, a sociedade Hora Literária de Palmares. Em 1922 tornou-se colaborador nos jornais recifenses Diário de Pernambuco e A Província. Dois anos depois, passou a escrever para os periódicos Mauricéia, Revista do Norte, Revista de Pernambuco, A Pilhéria, Revista da Cidade e Revista de Antropofagia. Participou, em 1926, do I Congresso Regionalista do Nordeste e, em 1934, do Congresso Afro-Brasileiro, ambos realizados em Recife. Seu primeiro livro de poesia, Catimbó, foi lançado em 1927. Em 1939 publicou a obra poética Cana Caiana; seguiram-se Poemas, 1922/1951 (1951), Poemas, 1922/1953 (1953), Catimbó e Outros Poemas (1963), Poemas (1981) e Eu Voltarei ao Sol da Primavera (1985). Na década de 1940 realizou conferências e estudos sobre divertimentos populares do Nordeste.

fevereiro 03, 2008

PELAS RUAS DO RECIFE, por Clóvis Campêlo


Pelas ruas do Recife

surge a novidade,

afirmam-se credos seculares,

renascem mitos modernos.

Pelas ruas do Recife

dorme-se o sono dos justos,

cessam as palavras,

falam por si sós os fatos.

Pelas ruas do Recife

caminha a humanidade,

correm as notícias,

dispara a revolução.

Pelas ruas do Recife

travam-se todas as lutas,

cruzam-se todos os olhares,

reverenciam-se todos os deuses.

Pelas ruas do Recife

transitam todos os anjos,

ocorrem todas as mortes,

condensam-se todas as imagens.

Clóvis CampêloRecife, 1999

janeiro 25, 2008

"Sem Mandamentos", por Osvaldo Montenegro

"Hoje eu quero a rua cheia de sorrisos francos
de rostos serenos,
de palavras soltas
eu quero a rua toda parecendo louca
com gente gritando e se abraçando ao sol
Hoje eu quero ver a bola da criança livre
quero ver os sonhos todos nas janelas
quero ver vocês andando por aí
Hoje eu vou pedir desculpas pelo que eu não disse
eu até desculpo o que você falou
eu quero ver meu coração no seu sorriso
e no olho da tarde a primeira luz
Hoje eu quero que os boêmios gritem bem mais
eu quero um carnaval no engarrafamento
e que dez mil estrelas vão riscando o céu
buscando a sua casa no amanhecer
Hoje eu vou fazer barulho pela madrugada
rasgar a noite escura como um lampião
eu vou fazer seresta na sua calçada
eu vou fazer misérias no seu coração
Hoje eu quero que os poetas dancem pela rua
pra escrever a música sem pretensão
eu quero que as buzinas toquem flauta-doce
e que triunfe a força da imaginação."
(Oswaldo Montenegro)

janeiro 15, 2008

Maria, por Lua Durand




- O futuro não existe, mas como explicar o que é o momento depois que você acabar de ler esse texto?-

Maria.


Noite de lua cheia e céu estrelado, as 20:00h o mundo ia pra casa, Maria não.

A casa dela era o Recife a céu aberto, e aquelas ruas de pedras ainda mais velhas do que ela.

Ela dormia no começo do mundo, no começo do seu mundo, exatamente sobre o km 0 do marco 0 de Recife. Dormia embalada não sei por qual melodia, coberta com pedaços de papelão.

A lua cheia a chuva veio, Maria de tudo fez para resguardar um pouco os seus poucos bens.

Mas sabe como é quem tá na chuva é pra se molhar, Maria chorou. A sua televisão era o asfalto e a solidão, e em dias de fome era a mesma dos cachorros em frente a alguma padaria.

Maria vivia, ou deixava-se viver. O peso da vida lhe era aparente sob a forma de uma corcunda, mas não seria esse critério que lhe definiria a beleza. Ela era bonita, muito até, com um sorriso encantador e os olhos vagos, fugindo do mundo.

- Onde o seu mundo começava, o seu mundo terminou. -
Lua Durand


janeiro 12, 2008

METADE, por Eluza Barros

Metade de mim é razão
a outra é sensibilidade,
metade é paixão, chama que arde,
fogo que queima,
a outra é paz que acalma,
incenso que perfuma a alma,
devoção que alimenta, amor que persiste,
água que purifica

metade de mim é ternura
a outra é loucura,
metade experimenta,
seduz, enfeitiça,
me faz mulher,
docilmente submissa,
feminina,
metade me leva por seus caminhos,
a outra percorre os meus,
metade se esvazia para eu ser inteira,
esgota-se para me tomar

metade sangra outra cura,
metade fere outra perdoa,
metade me torna bela,
elegante,
me alegra e faz feliz,
metade divide dias felizes com minhas noites de dor,
Chora para a outra sorrir,

Cala para a outra ouvir,
porque metade de mim anda, fala, come

metade é cor, luz e magia,
metade tem sabor de desejo
e cheiro de alecrim,
metade dança, canta,
se faz menino para me encantar,
metade é chuva
a outra metade é sol,
de um lado primavera
do outro outono

metade se faz berço para eu dormir e
noite para embalar meus sonhos.
Metade
minha cara metade,
meu outro lado
meu eu completo
meu todo.
Que nome você tem?

(republicando esta postagem atendendo a pedido de um amigo muito especial).

janeiro 11, 2008

NADA COMO O TEMPO!, por Mário Quintana

Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa,você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.

Percebe também que aquele alguém que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente não é o "alguém" da sua vida.

Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.

O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você. No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!

"O AMOR É IGUAL A UMA BORBOLETA,QUANDO VOCE TENTA PEGA-LA, ELA FOGE, MAS QUANDO VOCE TA DISTRAIDO, ELA VEM E POUSA EM VOCE!!!!!!!!!!!!!!"

janeiro 10, 2008

Poema 1, por Regina Werneck


Como se faz para pintar
uma flor
que nasceu de um sonho
de criança
com que tintas se pinta
uma ilusão
e com que cores se colore
o amor
Como se faz para escrever
canções
que falem da luz daqueles olhos
tristes
que falem do riso que não se
escutou
e do que a gente nunca se
esqueceu
Como se faz para não se
esquecer
do que foi somente um dia a mais
na vida
do que é feita a ilusão
da vida
e de que cor eu pinto
o esquecer
Não sei de cores e não sei
pintar
sei bem demais só de
esquecimento
mas como vou pintar este
momento
em que pergunto como é que
se faz .

A Moça Tecelã, por Marina Colasanti

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite.
E logo sentava-se ao tear.
Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.
Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.
Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.
Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.
E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.
— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.
Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.
— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.
Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!
Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.


Texto extraído do livro “Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento”, Global Editora , Rio de Janeiro, 2000.

janeiro 08, 2008

Se viesses comigo

Se viesses comigo te banharia
nas águas puras e cristalinas das pias batismais.
Teus cabelos negros
lavaria em água perfumada de alecrim.
Nas mãos, óleo de jasmim a deslizar teu corpo,
para depois envolver-te com o manto das divindades sagradas.
Tua fome saciaria com finas e raras iguarias e te ofertaria vinho,o mais inebriante.
Ornada de grinalda, flores e vestes de luz
caminharia ao teu lado sob jaspes e pétalas.
Na noite escura, à luz das estrelas,
qual loba faminta te devoraria, louca, insana e voraz.
Penetrando a madrugada abriríamos o universo a desvendar todos os mistérios...
tal qual estrelas,indeléveis,soltas e fugazes.

(Lu Barros)

Éramos dois, por Edson Marques



como se fôssemos mais,

e éramos tantos

como se dois

apenas.

Então,

a porta do meu peito

se abriu

como um sorriso terno

que beijava o sol

daquela tarde:

as dobradiças não rangeram,

não havia cheiro

de coisas antigas,

nem se crisparam as mãos.

E o sorriso da porta

cresceu

de forma tranqüila

e se fez palavra.

Naquela tarde

não houve sombras

na minha espera.
Edson Marques

janeiro 07, 2008

Esperança, por Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

janeiro 01, 2008

Receita de Ano Novo, por Drummond

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris,
ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo,
espontâneo,
que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come,
se passeia, se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha
ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade,
recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro,
tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você
que o Ano Novo cochila
e espera desde sempre.