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julho 16, 2008

Frevo nº 01



Ai, ai saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto
Do clube da Pás,
do Vassouras Passistas traçando tesouras
Das ruas repletas de lá
Batidas de bombos são maracatus retardados
Chegam da cidade cansados
Com seus estandartes no ar
Que adianta se o Recife está longe
E a saudade é tão grande
Que eu até me embaraço
Parece que eu vejo Walfrido Cebola
no passo
Haroldo Mathias, Colaço
Recife está dentro de mim.
Vivo della mia morte e, se ben guardo,
Felice vivo d' infelice sorte;
E chi viver non sa d'angoscia e morte
Nel foco venga, ov'io mi struggo e ardo".
Michelangelo Buonarroti, 1532



julho 12, 2008

Um Conto


VOZ DO VENTO


Uma flor existia, apenas existia, muda e inexpressiva, na beira de um lago próximo a montanha.
Mas ela não sabia que existia, nem sabia quem era.
Existia apenas dentro do eterno silêncio e isto lhe bastava.
Desejava ficar ali, imóvel, fazendo parte apenas dela mesma.
Não havia sentido vontade de dar nome as coisas, nem de experimenta- las.
O importante era se integrar completamente ao nada, porque este nada era toda a realidade que ela percebia.
Queria permanecer anônima dentro do inexistente, fora do tempo e do espaço e fora dela mesma.
Mas esta flor inconsciente dela mesma, foi acordada pela voz do vento.
Nesse dia descobriu que havia alguma coisa a mais existindo fora dela.
Lembrou que já havia recebido aquela visita antes em seu corpo, mas esta era a primeira vez que se sentia tocada realmente por dentro.
E, quando o vento sussurrou nos seus ouvidos, lindas palavras, a flor sentiu-se viva pela primeira vez.
Escutou aquela voz tão doce falando que ela era uma Rosa branca, cuja pureza brilhava como uma estrela solitária na imensidão da noite.
Atônita com aquela revelação, debruçou-se sobre o lago para examinar aquele reflexo luminoso que nadava lá dentro.
E, a partir daquele momento, passou a existir realmente e a saber quem era.
A flor reconheceu a vida que pulsava dentro e fora dela.
Agora podia sentir o brilho do Sol, o frescor da chuva.
E, ouvindo o canto dos pássaros aprendeu a cantar a sua própria canção.
Ansiava agora pela carícia do vento da montanha.
Como uma noiva radiante em seu vestido branco, esperava pelo noivo prometido, na esperança de conseguir ver o seu rosto, e dançar com ele a música do amor eterno.
Mas o vento sábio nunca mais voltou.
Compreendeu que o amor da Rosa, deixava-a vulnerável demais.
Sabia que se aproximando novamente, ela acabaria por desvanecer nos seus braços.
A Rosa branca chorou.
Chorou de saudade.
Chorou por amor.
Chorou com aquela brusca separação.
Triste, sabendo que nunca mais sentiria a presença do vento no seu corpo, a Rosa ainda se encantava com a magnitude do seu amigo querido.
Agradeceu-lhe o valioso presente que havia recebido dele, o presente de ter lhe dado ela mesma.
Secou as lágrimas e ergueu o olhar para o azul do céu, pois sabia que lá, em algum lugar, alguém olhava para ela com ternura.
E, mesmo que jamais o encontrasse de novo, sentia que ele estaria com ela para sempre, pois as suas vozes haviam se misturado dentro dela, agora eram uma única voz brincando pela montanha sagrada.

(autor desconhecido)

julho 02, 2008

Profano, por Leila Silva


Sofia estranhou aquela consistência.
Meteu os dedos na massa e levou-os à boca só para constatar que o gosto também fugia ao comum.
O comum era não ter gosto.
Entretanto seguira à risca os ensinamentos da mãe.
Padre Rafael apareceu na porta no momento em que ela lambia os dedos. De bermudão. Sofia enrubeceu.
'Algo errado?' Perguntou ele se aproximando.
Sem esperar resposta, tomou a mão da moça, enfiou-a de novo na massa, lambeu cada um dos seus dedinhos e sentiu o estremecimento do seu corpo.
Não se preocupe, filha, estas hóstias ainda não estavam consagradas.

Leila Silva

(achei esse conto super interessante e aí decidi publicá-lo aqui, copiei do blog de uma amiga muito especial Nora Borges em seu blog lingua de maripôsa, que por sua vez copiou do blog de outra amiga - Leila silva, em - Cadernos da Belgica).

junho 27, 2008

NÃO QUERO ALGUÉM QUE MORRA DE AMOR POR MIM...



NÃO QUERO ALGUÉM QUE MORRA DE AMOR POR MIM...

SÓ PRECISO DE ALGUÉM QUE VIVA POR MIM,

QUE QUEIRA ESTAR JUNTO DE MIM, ME ABRAÇANDO.

NÃO EXIJO QUE ESSE ALGUÉM ME AME COMO EU O AMO,

QUERO APENAS QUE ME AME, NÃO ME IMPORTANDO COM QUE INTENSIDADE.

NÃO TENHO A PRETENSÃO DE QUE TODAS AS PESSOAS QUE GOSTO,

GOSTEM DE MIM...

NEM QUE EU FAÇA A FALTA QUE ELAS ME FAZEM,

O IMPORTANTE PRA MIM É SABER QUE EU,

EM ALGUM MOMENTO, FUI INSUBSTITUÍVEL...

E QUE ESSE MOMENTO SERÁ INESQUECÍVEL...

SÓ QUERO QUE MEU SENTIMENTO SEJA VALORIZADO.

QUERO SEMPRE PODER TER UM SORRISO ESTAMPANDO EM MEU ROSTO,

MESMO QUANDO A SITUAÇÃO NÃO FOR MUITO ALEGRE...

E QUE ESSE MEU SORRISO CONSIGA TRANSMITIR PAZ PARA OS QUE ESTIVEREM AO MEU REDOR.

QUERIA TER A CERTEZA DE QUE APESAR DE MINHAS RENÚNCIAS E LOUCURAS,
ALGUÉM ME VALORIZA PELO QUE SOU, NÃO PELO QUE TENHO...

QUE ME VEJA COMO UM SER HUMANO COMPLETO,

QUE ABUSA DEMAIS DOS BONS SENTIMENTOS QUE A VIDA LHE PROPORCIONA,

QUE DÊ VALOR AO QUE REALMENTE IMPORTA,

QUE É MEU SENTIMENTO...

NÃO QUERO BRIGAR COM O MUNDO,

MAS SE UM DIA ISSO ACONTECER,

QUERO TER FORÇAS SUFICIENTES PARA MOSTRAR A ELE QUE O AMOR EXISTE...

QUE ELE É SUPERIOR AO ÓDIO E AO RANCOR,

E QUE NÃO EXISTE VITÓRIA SEM HUMILDADE E PAZ.
Mário Quintana

Amor é fogo que arde sem se ver, por Camões


Amor é fogo que arde
sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento
descontente
É dor que desatina sem doer
É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder
Nenhum caminho é longo demais quando um amor nos acompanha...

junho 13, 2008

ESTATUTO DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)



A Carlos Heitor Cony


Artigo I - Fica decretado que agora vale a verdade,

agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.


Artigo II - Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.


Artigo III - Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.


Artigo IV- Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.


Artigo V - Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI - Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.


Artigo VII - Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.


Artigo VIII - Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.


Artigo IX - Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.


Artigo X - Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, o uso do traje branco.

Artigo XI - Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.


Artigo XII - Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.


Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.


Artigo XIII - Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.


Artigo Final - Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

Você é linda, Caetano Velozo


Fonte de mel nuns olhos de gueixa

Kabuki, máscara

Choque entre o azul e o cacho de acácias

Luz das acácias

Você é mãe do sol

A sua coisa é toda tão certa

Beleza esperta

Você me deixa a rua deserta

Quando atravessa

E não olha prá trás
Linda, e sabe viver

Você me faz feliz

Esta canção é só pra dizer e diz

Você é linda

Mais que demais

Você é linda, sim

Onda do mar, do amor que bateu em mim

Você é forte

Letras e músicas

Todas as músicas que ainda hei de ouvir

No Abaeté, areias e estrelas

Não são mais belas

Do que você, mulher das estrelas

Mina de estrelas

Diga o que você quer

Você é linda

E sabe viver

Você me faz feliz

Esta canção é só pra dizer e diz

Você é linda
Mais que demais

Você é linda, simOnda do mar, do amor que bateu em mim

Gosto de ver você no seu ritmo

Dona do carnaval

Gosto de ter

Sentir seu estilo

Ir no seu íntimo

Nunca me faça mal

Linda Mais que demais

Você é linda, sim

Onda do mar, do amor que bateu em mim

Você é linda

E sabe viver

Você me faz feliz

Esta canção é só pra dizer e diz

junho 12, 2008

Quando eu me Amei de Verdade


Quando eu me amei de verdade,
Compreendi que em qualquer circunstância,
Eu estava no lugar no lugar certo e na hora certa
E então pude ficar tranquilo,
Hoje sei que a isso se chama

auto-estima.
Quando eu me amei de verdade,
Pude perceber que a minha angústia e sofrimento
Não passam de um sinal de que estou a contrariar a minha verdade.
Hoje sei que a isso se chama

Autenticidade.
Quando eu me amei de verdade,
Parei de desejar que a vida fosse diferente,
E comecei a ver que tudo contribui para o crescimento.
Hoje sei que a isso se chama

Amadurecimento.
Quando eu me amei de verdade,
Percebi que é ofensivo forçar algo ou alguém a uma situação
Hoje sei que a isso se chama

respeito.
Quando eu me amei de verdade,
Começei a livrar-me de tudo o que me diminuísse.
De início pensei que fosse egoísmo,
Hoje sei que a isso se chama

Amor-próprio.
Quando eu me amei de verdade,
Deixei de fazer grandes planos
Hoje faço o que gosto, quando quero e no meu ritmo.
Hoje sei que a isso se chama

Simplicidade.
Quando eu me amei de verdade,
Desisti de querer ter sempre razão,
E com isso errei menos vezes.
Hoje sei que a isso se chama

Humildade.
Quando eu me amei de verdade,
Desisti de ficar só no passado e de me preocupar tanto com o futuro.
Agora mantenho-me mais no presente,
Hoje sei que a isso se chama

Plenitude.


Charlie Chaplin

junho 04, 2008


"Aceita as surpresas que transformam teus planos, derrubam teus sonhos, dão rumo totalmente diverso ao teu dia e, quem sabe, à tua vida.

Não há acaso.

Dá liberdade ao Pai para que ÊLE mesmo conduza a trama dos teus dias".


Dom Hélder Câmara.

maio 25, 2008


Sou música penetrando-me a consciência do agora,

sou o sol lá fora sobre o canto das águas;

sou meu lado esquerdo, minha parte, meu todo;

sou sangue, desejo, emoção;

sou filho de mim — e profeta que me anuncia;

sou lembranças gostosas povoando este lugar;

sou o próprio fogo que me aquece com imagens que ainda vou ter;

sou a manhã,

sou hoje, maçã, caramelo, açúcar, desejo, ciência, perfume, delito — e canção;

sou azul, coração, noite, madrugada, vinho, cerejas, orvalho e barulho do mar;

sou os primeiros violinos que agora se mostram com todo vigor, o próprio Beethoven que


chega regendo essa orquestra que tenho no peito;

sou Vangelis, que num simples silêncio se vai,

sou agora Narciso, sou Nabuco — e o lindo coro dos escravos hebreus.

(Edson Marques)

maio 15, 2008

Sob o olhar



Subo no telhado tão rápida quanto um gato
alí quieta dá para contar o tempo
costuro meias de seda de cores pálidas
coloco água do café para ferver
arrasto móveis, mexo gavetas
espalho as estrelas guardadas há tanto tempo
(não perderam seu brilho)
reviro a mesa
espanto os males em um canto adormecido que
de tão longe sopra como um lamento
espio em direção as esquinas
espreito idas e vindas, altos e baixos
encontros e desencontros
observo a chuva que cai em gotas cintilantes
escorrendo frias nas vidraças dos arranha-céus
escuto gritos na noite, choro de criança
vida que nasce, vida que transforma
vida que dá sentido a outra vida
vida que se vai...
continuo costurando meias de seda...
penso no mês de fevereiro
penso no mar
trago em mim o sol
o esplendor da alma
a vontade de amar...
subo de novo no telhado
tão depressa quanto um gato vadio
Subo o telhado
para espiar...
(Lu Barros)




maio 11, 2008

Mãe das mães


Sede como MARIA - Mãe de Jesus

- Bem Aventurada


Bem aventurada a mulher que cuida do próprio perfil interior e exterior, porque a harmonia da pessoa faz mais bela a convivência humana.


Bem aventurada a mulher que, ao lado do homem, exercita a própria insubstituível responsabilidade na família, na sociedade, na história e no universo inteiro.


Bem aventurada a mulher chamada a transmitir e a guardar a vida de maneira humilde e grande.

Bem aventurada quando nela e ao redor dela acolhe faz crescer e protege a vida.


Bem aventurada a mulher que põe a inteligência, a sensibilidade e a cultura a serviço dela, onde ela venha a ser diminuída ou deturpada.


Bem aventurada a mulher que se empenha em promover um mundo mais justo e mais humano.


Bem aventurada a mulher que, em seu caminho, encontra Cristo: escuta-O, acolhe-O, segue-O, como tantas mulheres do evangelho, e se deixa iluminar por Ele na opção de vida.


Bem aventurada a mulher que, dia após dia, com pequenos gestos, com palavras e atenções que nascem do coração, traça sendas de esperança para a humanidade.

G.Quablini

maio 06, 2008

Estrela da manhã,por Manoel bandeira


"Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.
Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d´alva
Rainha do mar.
Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar".


"(Cantiga; Estrela da Manhã)

abril 08, 2008

Exclusividade, por Edson Marques



são de amor, naturalmente,

e feitos por mim quando me espanto

no meu canto encantador.


Certos poemas eu escrevo com os olhos

nos teus olhos, meu amor;

outros, muito longe de você.

A maioria,

com meu coração ainda pendente,

pulsando no peito de um amor

que às vezes encontrei

nos caminhos desta vida,

por acaso e de repente.


Algumas das poesias

eu as te fiz diretamente,

outras foram feitas para amores

diferentes,

mas depois eu as trouxe até aqui

— para você, naturalmente.


Muita coisa bela eu sinto por você

enquanto ainda estou colado

no corpo amante da outra,

suspirando de amor também por ela,

alegremente.

E sei também que muitas coisas

que hoje você diz

já foram ditas para outros

— mas isso não lhes tira

a beleza e a semente.


Sei que essas palavras de amor

se repetem entre nós

com a mesma intensidade,

e muitas das verdades

que dizemos um ao outro

são bem ditas,

simplesmente.
Edson Marques

Multiplicar Amor




Que nossas mãos possam ser portadoras de paz...
De afagos...
De carinho...
Que escorra delas os mais
límpidos sentimentos...
De bálsamos... de alívio...
de força... de luz...
Que possam ser espraiados
na terra árida...
fazendo germinar o amor
entre as pessoas...
Multiplicando
a essência de nós

Fazendo-nos fortes ao meio à tempestade
Deixando-nos ver o sol que nasce...
Que rompe a noite...
Que se faz dia...
Que se faz belo...
Que se faz vida!
Que se chama amor.


abril 06, 2008

Teço em tear de espuma, por Mel


Teço em tear de espuma
Em entrelinhas de bruma
Os pontos cardeais
Escrevo
Ao som do murmurar das ondas
Nas águas remexidas espirais
Nesta Baia Gambôa, fruta proibida
Fruta perdida, caída … tombada,
De pele macerada, ferida.

Escrevo em doiradas areias,
Mãos cheias de letras pequenas…
São, prosas, são rosas … poemas.
São rimas … são compostas,
Compotas de agridoce frutas …
Mordidas, rasgadas … ausentes,
Em bocas dormentes, na angustia
Da ausência de um beijo…

Letras … na angustia sofrida,
De um beijo de uma boca palavra,
Terra árida, deserto de água lisa,
De charrua de lavra…
Terra… gretada, rasgada, estirada,
Em sulcos muros de pranto …

Escrevo e inscrevo nos ventos amenos,
Todos os signos, sons de mim e do mar,
Palavras … palavras apenas…
Sons contidos, de todas as marés,
Mãos postas em oração, num acto de fé…

Inscrevo sombras que imploram
E choram … espelhadas em mim,
A dor e o silêncio, do gesto, do abraço,
E, das palavras … amordaçadas,
Na tua boca … teço estas letras,
Tear de espuma …

Escrevo… louca … este segredo,
No dorso de uma gaivota na
Esperança vã de que ela, que atravessa
Os mares e as tempestades e,
Regressa a esta praia todos os finais de tarde,
Seja o exemplo para quem, tem
Como eu … da vida medo!

março 29, 2008

" Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto,
Mesmo quando a situação não for muito alegre...
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...
E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim
quando fecha os olhos,
que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras,
alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo,
que abusa demais dos bons sentimentos que a vida proporciona,
que dê valor ao que realmente importa,
que é meu sentimento.... e não brinque com ele.
"***(Mário Quintana)*

março 26, 2008

Tecendo estrelas de VAN GOGH, Por Bárbara Lia

Tela de Vivent Van Gogh - Noite Estrelada
Estrelas escorriam da tela,
na solidão do museu.
Aparei gotas de céu em minhas mãos.
Enovelei-as.
Possui por um tempo,
Estrelas abrasadas de loucura
e o azul mais azul que pode o azul ser.


Museu de Nova Iorque
em delírio.
Corre-corre. Alarmes. Vigias.
Não revistaram minhas mãos.
Um céu enovelado que me aquece
e apaga – primaveras sem teus beijos,
invernos de angústias.


Teci um manto azul
de estrelas emaranhadas,
um manto enfeitiçado.
Das estrelas da noite do artista.
Tenho mãos de fada.
e tenho tanto amor,
quanto estas estrelas deslumbradas.


Quando chegar aquele que amo.
Com seus olhos
que são para mim, música;
e para outros, mel.
Quando ultrapassar a escura porta
e se quedar no branco leito.
Eu o cobrirei com o céu.

março 07, 2008

Um dia branco



Dai-me um dia branco,

um mar de beladona

Um movimento Inteiro,

unido,

adormecido

Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme

Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas

Que ao olhá-las me pareça

Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.


(Sophia de Mello Breyner Andersen)

março 05, 2008

Canção do dia de sempre, por Mário Quintana


Tão bom viver dia a dia...A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos

Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos

Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas...


março 04, 2008

Gosto de gente com a cabeça no lugar,
de conteúdo interno, idealismo nos olhos e dois pés no chão da realidade.
Gosto de gente que ri, chora, se emociona com um simples e-mail,
um telefonema, uma canção suave, um bom filme,
um bom livro, um gesto de carinho, um abraço, um afago.
Gente que ama e curte saudade, gosta de amigos, cultiva flores, ama os animais.
Admira paisagens, poeira e chuva.
Gente que tem tempo para sorrir bondade, semear perdão, repartir ternuras,
compartilhar vivências e dar espaço para as emoções dentro de si,
emoções que fluem naturalmente de dentro de seu ser!
Gente que gosta de fazer as coisas que gosta,
sem fugir de compromissos difíceis e inadiáveis,
por mais desgastantes que sejam.
Gente que colhe, orienta, se entende, aconselha,
busca a verdade e quer sempre aprender,
mesmo que seja de uma criança,
de um pobre, de um analfabeto.
Gente de coração desarmado, em ódio e preconceitos baratos.
Com muito AMOR dentro de si.
Gente que erra e reconhece, cai e se levanta, apanha e assimila os golpes,
tirando lições dos erros e fazendo redentoras suas lágrimas e sofrimentos.
Gosto muito de gente assim como VOCÊ
e desconfio que é deste tipo de gente que DEUS também gosta!


fevereiro 29, 2008

Presença, Mário Quintana


É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale

sutilmente, no ar, a trevo machucado,

a folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela

e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces com o teu retrato...

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

fevereiro 04, 2008

Luis Gonzaga


" Quando eu vim dos sertão,

seu moço do meu Bodocó

a malota era um saco

e o cadeado era um nó

só trazia a coragem e a cara

viajando num pau de arara

eu penei,

mas aqui cheguei... '

Vento forte da África, por Solano Trindade



Tem gente com fome

- Trem sujo da Leopoldina

correndo

correndo

parece dizer

tem gente com fome

tem gente com fome

tem gente com fome

Piiiiii

Estação de Caxias

de novo a dizer

de novo a correr

tem gente com fome

tem gente com fome

tem gente com fome

Debaixo do tamarindo, por Augusto dos Anjos

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!


Hoje, esta árvore de amplos agasalhos
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da flora brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!


Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,


Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade,
A minha sombra há de ficar aqui!

"Chope",Carlos Souto Pena Filho


Na avenida Guararapes,

o Recife vai marchando.

O bairro de Santo Antonio,

tanto se foi transformando que,

agora às cinco da tarde,

mais se assemelha a um festim.

Nas mesas do Bar Savoy,

o refrão tem sido assim:

São trinta copos de chope,

são trinta homens sentados,

trezentos desejos presos,

trinta mil

sonhos frustrados

O cão sem plumas", João Cabral de Melo Neto


(...) Aquele rio

era como um cão sem plumas.

Nada sabia da chuva azul,

da fonte cor de rosa,

da água do copo de água,

da água do cântaro,

dos peixes de água,

da brisa na água.

Sabia dos caranguejos

de lodo e ferrugem.

Sabia da lama como de uma mucosa. (...)

Na paisagem do rio

difícil é saber onde começa o rio;

onde a lama começa no rio;

onde a terra começa da lama

onde o homem, onde a pele começa

da lama; onde começa o homem

naquele homem.

sobre o Recife, por Capiba.


""Recife cidade lendária

das negras de engenho cheirando a bangüe..."

Evocação.por Manoel Bandeira


Rua da União...

Como eram lindos os nomes das rua da minha infância

Rua do Sol (Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)

Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...

... onde se ia fumar escondido

Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...

... onde se ia pescar escondido

Capibaribe-Capibaribe

Lá longe o sertãozinho de Caxangá

Banheiros de palha

Um dia eu vi uma moça nuinha no banho

Fiquei parado o coração batendo

Ela se riu

Foi o meu primeiro

alumbramento
Manoel Bandeira



ruas e praças do recife, Clarice Lispector

“Como se enfim o mundo se abrisse de botào

que era em grande rosa escarlate.

Como se as ruas e as praças do Recife

enfim explicassem para que tinham sido feitas.

Como se vozes humanas enfim cantassem

a capacidade de prazer que era secreta em mim.

Carnaval era meu, meu".

“Ai que saudade tenho do meu Recife", Antonio Maria



“Ai que saudade tenho do meu Recife
Da minha gente que ficou por lá
Quando eu pensava,
chorava,
falava,
Contava vantagem,
marcava viagem
Mas não resolvia
se ia
Vou-me embora
Vou-me embora
Vou-me embora
Pra lá”
Frevo N0 2 do Recife

" Tarde no Recife", por Joaquim Cardozo


" tarde no Recife

da ponte Maurício o céu e a cidade......

Recife romântico

dos crepúsculos das pontes

dos longos crepúsculos

que assistiram à passagem dos fidalgos

holandeses....

Recife romântico

do crepúsculo das pontes

e da beleza católica do rio"

A Cidade, por Chico Science


A Cidade
O sol nasce e ilumina
as pedras evoluídas
que cresceram com a força
de pedreiros suicidas
Cavaleiros circulam
vigiando as pessoas
Não importa se são ruins
nem importa se são boas
A cidade se apresenta
centro das ambições
para mendigos ou ricos
e outras armações
Coletivos,
automóveis ,
motos e mêtros
Trabalhadores,
patrões,
policiais,
camelôs
A cidade não pára
a cidade só cresce
O de cima sobe
e o de baixo desce
A cidade não pára.





"...dia nítido lavado pelo Capibaribe, por Mauro Mota

"...dia nítido lavado pelo Capibaribe.o rio ninando o Recife. O Recife criança em seus braços maternos."


A chuva cai sobre o Recife devagar,
banha o Recife,
apaga a lua,
lava a noite,
molha o rio,
e a madrugada neste bar.

A chuva cai sobre o Recife devagar.
A chuva cai sobre o telhado das casinhas de subúrbio,
canta berceuses a doce chuva.
É a voz das mães que estão no canto de onde a chuva agora veio.

A chuva cai,
desce das torres das igrejas do Recife,
corre nas ruas,

e nestas ruas,
ainda há pouco tão vazias,
agora passam,
de capote,
transeuntes do tempo longe,
esses fantasmas de mãos frias.

Mauro Mota
(nasceu no Recife a 16 de agosto de 1911)

NOTURNO, Ascenso Ferreira


Sozinho, de noite,

nas ruas desertas do velho Recife

que atrás do arruado

moderno ficou...

Criança de novo

Eu sinto que sou.

Larga de ser vagabundo, Ascenso!



Poeta, Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira nasceu no município de Palmares, zona da Mata de Pernambuco, a 09 de maio de 1895, filho único do comerciante Antônio Carneiro Torres e da professora Maria Luiza Gonçalves Ferreira. Órfão aos 13 anos de idade, passa a trabalhar na mercearia de um tio e, em 1911, publica no jornal A Notícia de Palmares, o seu primeiro poema, "Flor Fenecida".Começou a colaborar em jornais em 1912, em Palmares e Recife PE. Em 1917 fundou, com Antonio de Barros Carvalho, Antonio Freire e Artur Griz, entre outros, a sociedade Hora Literária de Palmares. Em 1922 tornou-se colaborador nos jornais recifenses Diário de Pernambuco e A Província. Dois anos depois, passou a escrever para os periódicos Mauricéia, Revista do Norte, Revista de Pernambuco, A Pilhéria, Revista da Cidade e Revista de Antropofagia. Participou, em 1926, do I Congresso Regionalista do Nordeste e, em 1934, do Congresso Afro-Brasileiro, ambos realizados em Recife. Seu primeiro livro de poesia, Catimbó, foi lançado em 1927. Em 1939 publicou a obra poética Cana Caiana; seguiram-se Poemas, 1922/1951 (1951), Poemas, 1922/1953 (1953), Catimbó e Outros Poemas (1963), Poemas (1981) e Eu Voltarei ao Sol da Primavera (1985). Na década de 1940 realizou conferências e estudos sobre divertimentos populares do Nordeste.

fevereiro 03, 2008

PELAS RUAS DO RECIFE, por Clóvis Campêlo


Pelas ruas do Recife

surge a novidade,

afirmam-se credos seculares,

renascem mitos modernos.

Pelas ruas do Recife

dorme-se o sono dos justos,

cessam as palavras,

falam por si sós os fatos.

Pelas ruas do Recife

caminha a humanidade,

correm as notícias,

dispara a revolução.

Pelas ruas do Recife

travam-se todas as lutas,

cruzam-se todos os olhares,

reverenciam-se todos os deuses.

Pelas ruas do Recife

transitam todos os anjos,

ocorrem todas as mortes,

condensam-se todas as imagens.

Clóvis CampêloRecife, 1999