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agosto 31, 2007

Um bilhete recebido

Encontrei entre meus guardados um pedacinho de papel já amarelado pelo tempo, um bilhetinho de uma amiga muito especial da minha infancia e adolescencia. Achei que deveria eternizá-lo aqui neste meu espaço. Sou muito feliz porque na minha vida fiz belas amizades as quais guardo no lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não... obrigada Maria José, boa amiga Mazé.
O que importa é ouvir a voz que vem do coração...

Aflitos, 05 de julho de 1984.


Eluza querida,

Vivo momentos felizes, quase inacreditáveis...
Gostaria que soubesses que partilho cada um desses momentinhos com o coração cheio de amor e confiança, pois, esses sentimentos eu consegui solidificar a partir do nosso maravilhoso tempo de adolescentes carentes de paz e esperança...
Sou sinceramente agradecida a ti que abriste-me os olhos da alma para a essência do espírito cristão...
Tenho o maior orgulho de ter como verdadeira amiga uma criatura transcendental que vive eternamente comigo,
é essa pessoa a única que tem no meio do seu lindo nome
a grandeza e a esperança da vida "E "luz" a".

agosto 27, 2007

DESENCANTO, por Manoel Bandeira


Eu faço versos como quem chora
De desalento ... de desencanto ...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente ...
Tristeza esparsa ... remorso vão ...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

agosto 26, 2007

Poema da Noite, por Zelia Bora


Gostaria de nada desejar esta noite a não ser
O sono dos inocentes,
repousar minha cabeça cansada sobre um
travesseiro quieto.
Não sonharia, porque os sonhos projetam nossos
desejos fatigados
pelas perdas e ganhos.
Dormiria e acordaria sem alegria,
sem tristeza
e sem saudade,
enquanto o momento seria um leve
reconhecimento do que chamamos vida.
E, se eu desejasse algo,
lembraria, repentinamente, quem sabe,
teus olhos;
depois, tocaria meu lençol de flores miúdas de
um verão imaginário,
dormiria feliz e, pela manhã,
o sol brilharia lá fora e desafiaria inerte minha tola
existência


Zélia Bora tem doutorado em Estudos Portugueses e Brasileiros, pela Brown University, USA e atualmente é professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal da Paraíba –UFPb.

agosto 20, 2007

Ausência, por Vinicius de Moraes



Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doce
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Vinícius de Moraes

Cartas de amor


Todas as cartas de amor são ridículas.
Não seriam cartas de amor
Se não fossem ridículas.
Também escrevi em meu tempo
cartas de amor,
Como as outras,
ridículas.
As cartas de amor,
Se há amor,
Têm de ser ridículas.
Mas, afinal, só as criaturas
que nunca escreveram
cartas de amor
É que são ridículas...

Álvaro de Campos ( heterônimo de Fernando Pessoa ) - 21/10/1935

agosto 08, 2007

Te Quiero, por Pablo Neruda



No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.

Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Tal vez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor,
a sangre y fuego.

Pablo Neruda: Cien sonetos de amor

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.

Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te, como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.

agosto 05, 2007

por CORA CORALINA




Não sei se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada que vivemos
tem sentido,
se não tocamos o coração
das pessoas.
Muitas vezes
basta ser Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo.
È o que dá sentido a vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta,
nem longa demais.
Mas que seja intensa,
verdadeira e pura.
Enquanto durar.
" Feliz aquele que transfere o que sabe...
e aprende o que ensina".
Cora Coralina

agosto 04, 2007

Quem Morre?, Por Pablo Neruda


Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê, quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior que o simples fato de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.

julho 30, 2007

Os Teus Olhos, por Florbela Espanca



O Céu azul, não era
dessa cor, antigamente;
Era branco como um lírio,
Ou como estrela cadente.
Um dia, fez Deus uns olhos

Tão azuis como esses teus,
Que olharam admirados
A taça branca dos céus.
Quando sentiu esse olhar:

“Que doçura, que primor!
”Disse o céu, e ciumento,
Tornou-se da mesma cor!
Florbela Espanca
21/01/1916

julho 27, 2007

Se viesses comigo

Se viesses comigo te banharia
nas águas puras e cristalinas das pias batismais.
Teus cabelos
negros
lavaria em água perfumada de alecrim.
Nas mãos, óleo
de jasmim
a deslizar teu corpo,
para depois
envolver-te
com o manto das divindades sagradas.
Tua fome
saciaria com finas
e raras iguarias e te ofertaria vinho,o mais inebriante.
Ornada de grinalda, flores e vestes de luz
caminharia ao teu lado sob jaspes e pétalas.
Na noite escura, à luz das estrelas,
qual loba faminta te devoraria, louca, insana e voraz.
Penetrando a madrugada abriríamos o universo a desvendar todos os mistérios... .
tal qual estrelas,indeleveis,soltas e fugazes.
(Lu Barros)


julho 25, 2007

Mulheres, por Edson Marques


Não me bastam os cinco sentidos para perceber-lhes toda a beleza.
Não me bastam os cinco sentidos para viver com totalidade o mistério profundo que elas trazem consigo.
Eu tenho é que tocá-las, cheirá-las, acariciá-las, penetrar-lhes o sorriso, sentir o seu perfume, beijar-lhes o céu da boca, ouvir suas histórias, transformá-las em deusas.
Tenho que dar-lhes o amor que o meu corpo conduz e sustenta-me a alma.
O belo amor natural por todas as coisas do mundo. Como espelho de paixões em labareda, tenho que sentir nos seus olhos um raro brilho diamante.
Eu as respeito e as venero, com a graça de um cisne que dança num lago tranqüilo e a ousadia de um touro selvagem recém-despertado.
Não lhes faço perguntas, não as pressiono por nada, não lhes tiro a liberdade, não quero mudá-las jamais.
Sempre imagino o que estejam sonhando, e pulo de cabeça no sonho delas.
Cavalgo o vento para visitar-lhes as razões, as emoções e as loucuras.
Como um deus escandaloso e surpreso por sua própria criatura, entro no coração de cada uma delas, deliciosamente, como se entrasse numa pulsante catedral.
Mergulho na essência dos seus desejos e cada vez me espanto mais com tanta fantasia.
Os cinco sentidos, por não serem precisos, ainda não bastam, e preciso mais do que isso para compreendê-las.
Toda mulher é silenciosa por dentro.
A existência pura se manifesta em cada detalhe.
Assim na terra como no céu, amar as mulheres é uma experiência religiosa.
E eu as amo, fina substância, como deve amar quem ama de verdade — incondicionalmente.
Sem ciúmes.
Eu amo as morenas, as loiras, as baixinhas, as altas, as lindas, as quase feias.
Amo as virtuosas, as magras, as gordinhas, as diabólicas, as tímidas, e até as mentirosas.
As iluminadas, as pecadoras, e as santíssimas.
Amo as virgens, as pobres, as ricas, as loucas, as muito vivas, as inocentes.
As bronzeadas pelo sol, e as branquinhas.
As inteligentes, e as nem tanto.
Desde que sensíveis, eu amo as jovens, as velhas, as solteiras, as casadas, as separadas.
As bem-amadas, e as abandonadas.
As livres, e as indecisas.
E se me dessem o poder, o tempo e, principalmente, a chance, eu a todas elas daria, todos os dias, um orgasmo cósmico, poético e sublime.
Apanharia flores silvestres, tomaria sol com todas elas.
Andaríamos descalços na areia, contemplaríamos crepúsculos cor de abóbora, jantaríamos à luz de velas, dançaríamos, tomaríamos vinho branco, olharíamos as estrelas.
E eu lhes faria poesias de amor.
Puro como um anjo, amaria cada uma delas eternamente — uma por vez.
Com delicadeza, com doçura, com profundidade, com inocência.
Entusiasmado, como se cada uma fosse a única.
Como se no mundo inteiro não houvesse mais nada, nem ninguém.
Todas as noites, passaria cremes e encantos no seu corpo.
Falaria sobre fábulas, contaria histórias românticas, as veria dormir.
Ouvindo Beethoven, velaria por um tempo o sono delas, e de madrugada, antes do sol raiar, antes do primeiro pássaro cantar, as cobriria com o resto de luar que ainda houvesse, e sairia em silêncio.
Como um felino lógico, sensual e saciado, deslizaria pelo cetim azul-celeste dos lençóis, saltaria por sobre todas as metáforas — e sorrindo iria embora.
Enfim, se por acaso fosse Deus, eu com certeza não mais ficaria cuidando do universo e dessas outras coisinhas banais.
Não ficaria controlando o destino das pessoas, o tempo, os compromissos, a pressa, o caminho dos planetas, a economia, o cotidiano, o infinito, os genes, a Internet, a gravidade, a geografia… Não! Eu somente iria amar as mulheres, como elas merecem.
E como nunca foram amadas.
Só isso, definitivamente.
Nada mais,
nada mais!

julho 24, 2007

Simplesmente eu



Sou estrela solitária
Entre tantas estrelas
Sou o brilho de uma delas,
Que não ofusca, nem se apaga...
Sou raio de sol esquecido,
Outrora fogo,
Hoje um brilho esmaecido.
Sou efêmera,
Sou sensível,
Sou fraca,
Sou falível,
Sou eterna
Nas minhas dores...
Sou um tanto de romantismo,
A poesia que restou,
Sou um tanto de melodia
Que doeu no peito
E a rima que não se achou.
Mas!...Assim sou eu!
Sou a onda que se quebra,
Mas volta com insistência,
Num recomeçar incessante!
Sou a espuma branca na areia
Que se desmancha num instante,
Num eterno beijo ofegante,
Sou um coração por inteiro,
Que não se cansa,
Que crê no amor verdadeiro!
Sou aquela que luta,
Que ama e que quer!
Sou quem nunca desiste,
Sou simplesmente
Uma mulher!...

Leticia Thompson

julho 21, 2007

Eu queria trazer-te uns versos lindos, por Mario Quintana


Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim!
Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas...
e que estão escritas do lado de fora do papel...
Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo,
ardente e puro,
ao vento da Poesia...
como uma pobre lanterna
que incendiou!

julho 15, 2007

A VIDA PELO LADO DE DENTRO



O mundo será sempre como nós somos. Os sentimentos, as idéias, os desejos e os pensamentos que compõem nossa vida interior, terminarão por influir na dinâmica do mundo, atingindo coisas e pessoas. Quando nos queixamos das angústias e das dores que encontramos no ambiente que nos rodeia, na realidade estamos expressando desgosto conosco mesmos. Se o que existe dentro de nós produz bem-estar e se reveste de respeito e apreço pelo que está fora de nós, começaremos a interferir em nossa forma de viver. O mundo mudará na medida que manifestarmos, de uma forma amorosa, os anseios que vivemos internamente.Quantas coisas boas imaginamos e, mesmo, desejamos realizar, mas as destruímos no seu nascedouro, privando-nos a nós e aos outros de experimentar do manancial que temos!O mundo será sempre parecido com o que está dentro de nós. Se somos impacientes, a impaciência atingirá os que estão próximos de nós. Se somos medrosos, o medo contaminará os que estão ao nosso lado. Se somos mesquinhos, mesquinho também será o mundo do nosso entorno. O mundo nunca será diferente do que somos.Isso nos mostra que dificilmente conseguiremos ensinar às pessoas aquilo que sabemos. Ensinamos, sim, o que somos. Não é a palavra, por mais significado pedagógico que tenha seu conteúdo, que produzirá algum ensinamento relevante. A efetivação do que se ensina – o que equivale dizer, mudança de comportamento – será sempre a absorção do testemunho alheio através de atitudes e ações. A palavra tem sua importância como uma forma de sublinhar a ação. Ensinamos o que somos e não propriamente o que sabemos. Essa constatação é clara no âmbito da família. Pais e mães se angustiam por verem poucos resultados na explicitação de seus ensinamentos verbais. Os filhos, às vezes, têm dificuldade de ver coerência entre o que os pais verbalizam e a ação que empreendem como pessoas. O mesmo vemos em nossa relação com professores, superiores hierárquicos no trabalho profissional e até no âmbito mais amplo da liderança comunitária. As palavras, por mais sábias que sejam, não resistirão à ação corrosiva do testemunho contraditório de quem as profere.Temos aprendido a arte da organização, o que, certamente, resulta em muitos benefícios para a nossa sobrevivência em um mundo tão cheio de contradições. Muitos têm sido os métodos e as técnicas que nos auxiliam no trabalho profissional, nas relações do dia-a-dia com as pessoas, no aproveitamento dos esforços da comunidade. Alguns de nós nos tornamos exímios organizadores do ambiente no qual desenvolvemos a vida, no entanto, nos distanciamos da organização fundamental, aquela que nos prepara interiormente para ver no mundo fora de nós o sentido produtivo da existência.Somos, de modo geral, despreparados para proceder à organização interna da mente e das emoções que dão forma ao nosso sentido de vida. De que vale a organização de fora sem a motivação e o direcionamento da organização de dentro?Fazemos, muitas vezes, esforços titânicos para organizar a vida externa sem nos dar conta que perderemos tais conquistas se não conseguirmos nos organizar internamente.Infelizmente, deixamos em plano secundário, quando não completamente no esquecimento, o hábito da reflexão, da meditação e da revisão de nossos pensamentos, idéias e emoções. Nunca seremos inteiramente felizes se não conseguirmos a harmonia entre o sentido de vida e nossas ações diante das coisas e pessoas que estão à nossa volta.Essa não é uma tarefa fácil e nem mesmo tranqüila. O barco não se movimenta na calmaria. Será sempre necessária a ação dos ventos, que deixam as águas agitadas, mas promovem a impulsão das velas, que o empurram para adiante.A ação, o progresso, o crescimento têm por trás de si a ebulição da alma e a agitação das emoções. A calma nos prepara para o desenvolvimento; a calmaria nos leva à improdutividade. O crescimento ocorre, de uma forma geral, no contexto de crises, entendendo “crise” como um movimento de mudança. Não se conquista o crescimento sem dores. Sem dúvida, existem lágrimas que são doces. São conhecidas dos adolescentes as experiências das dores corporais do crescimento físico. Benditas dores! Mais uma vez desperdiçamos nossos esforços quando prestamos atenção apenas no que está fora de nós. Quando nos voltamos para o lado de dentro da vida – a mente e as emoções – descobrimos que nos encontramos com aspectos que ultrapassam as fronteiras da razão. Isso só acontece quando mergulhamos em nossa própria alma, onde a razão não consegue penetrar.É nesse momento que começamos a percorrer o caminho da sabedoria e descobrir que a vida se constitui muito mais no que está dentro de nós do que daquilo que está fora. “A sabedoria consiste em estar confortável com a certeza e a incerteza” (49). Não só estamos bem quando somos acalentados pela certeza. Também poderemos viver seguros, mesmo quando identificamos incertezas, que apontam para os nossos limites. É aí que aprendemos a humildade, que sendo, grandes ou pequenos, sábios ou ignorantes, podemos viver em harmonia com a vida.A sabedoria nos leva à humildade e esta à simplicidade. Dessa forma, torna-se fácil viver, apesar das conturbações externas. A força que construímos dentro de nós se torna suficiente para resistir às agressões e injustiças que vêm de fora.A sabedoria, a humildade e a simplicidade estão incrustadas em um alicerce indestrutível: o amor. Se conquistarmos a coragem de amar, teremos adquirido um instrumento eficiente para viver. Parafraseando Platão, poderemos dizer: “ Uma vez acesa a chama do amor, nunca se extinguirá” (50). Quem conquista a coragem de amar não sofrerá derrotas definitivas. O amor permanecerá, enquanto permanecermos como pessoas.Vivemos de milagres – a vida é um milagre. E fazemos parte desse milagre. Vivemos de amor – e o amor, sem dúvida, é o grande milagre da vida.
Luis schetinni – psicólogo pernambucano

julho 13, 2007

LIBERTÉ


Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nomeEm toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome
Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome
Nas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome
Nas maravilhas das noites
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome
Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome
Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome
Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome
Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome
Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome
Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome
Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome
No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome
Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome
No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome
Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome
Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome
Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome
Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome
Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome
E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar Liberdade

Paul Éluard - Liberté
Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira

julho 06, 2007

Introspeção


Eis o ponto de partida:
refazer e reconstruir a alma.
Buscar a essência vital,

recolher os cacos,
remendá-los,
ter a capacidade de recomeçar.
alimentar os sonhos,
afinar a voz ao canto,
banhar-se em águas revitalizantes,
purificar-se em rios sagrados,
perfumar-se,
encher-se de poesia,
elevar a alma em oração,
reconhecer a própria força intuitiva
e preparar-se para o grande salto
a luz da claridade dos relâmpagos e
com os mil olhos das estrelas.
Eis a chave que abre todas as portas...

todas as possibilidades.
Lu Barros

junho 30, 2007

MULHER AO ESPELHO

Hoje, que seja esta ou aquela, pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura,
já fui morena,
Já fui Margarida e Beatriz,
Já fui Maria e Madalena,
Só não pude ser como quis.
Que mal faz,
esta cor fingida
do meu cabelo,
e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo,
a vida,
o contentamento, o desgosto?
Por fora,
serei como queira,
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada,
não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

Cecília Meireles
publicado em Mar Absoluto - 1945

junho 26, 2007

Se não for agora, quando?, por Edson Marques


Tem hora
de parar e tem
hora de partir
tem hora
de perma
necer
quieto
e calado
num canto,
e tem hora
de cantar
e de voar.
E agora,
agora não é hora
de dobrar
as asas,
nem de calar a voz,
nem de catar gravetos
para fazer o ninho.
Agora não é hora
de sentir remorsos,
nem de buscar
consolo,
nem de caiar o túmulo.
Agora que estou na beirada,
bêbado de alegria,
pronto para o salto,
não me segure em nome de nada.
Não queira impedir-me dizendo que é muito cedo,
ou que é muito tarde,
ou que está escuro,
é perigoso,
muito alto,
muito fundo,
muito longe... Não!
E se você não puder incentivar-me para o salto,
ou até mesmo empurrar-me com amor em direção à Vida,
não me prenda,
não me amarre.
Não envenene com teu medo a minha dança.
Seja só uma testemunha silenciosa desta vertigem.
Porque agora,
agora é hora de voar,
agora é hora de abrir-me a todas as possibilidades.
E voar um vôo livre e sem destino para dentro de mim mesmo.

Eu sou uma Mulher

Eu sou uma Mulher
poema de Marina Colassanti


Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar
Os homens vertem sangue
Por doença
Sangria
ou por punhal cravado,
rubra urgência
a estancar
trancar
no escuro emaranhado das artérias
Em nós
O sangue aflora
Como fonte
No côncavo do corpo
Olho d´água escarlate
Encharcado
de cetim
Que escorre
Em fio
Nosso sangue se dá.
De mão beijada
Entrega-se ao tempo
como chuva ou vento.
O sangue masculino
tinge as armas
e o mar
empapa o chão
dos campos de batalha
respinga as bandeiras
mancha a história.
O nosso vai colhido
Em brancos panos
Escorre sobre as coxas
Benze o leito
Manso sangrar sem grito
Que anuncia
A ciranda da Fêmea.
Eu sou uma
mulher
Que sempre achou bonito
Menstruar
Pois há um sangue
Que corre para a morte.
E o nosso
Que se entrega
para a LUA.

junho 18, 2007

Canção das Mulheres

"Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.
Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.
Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.
Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.
Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade mas talvez seu medo ou sua culpa.
Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo que é culpa dele, ou que não o amo mais.
Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde dizendo "Olha que estou tendo muita paciência com você!
"Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a diminua, nem me chame de ingênua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre pra mim, por mais tola que lhe pareça. Que quando sem querer eu digo uma coisa inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha e nem me ridicularize.
[...] Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.
Que o outro - filho, amigo, amante, marido - não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.
Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa:vulnerável, forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa -
uma mulher"
(por lya luft).