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agosto 02, 2010


Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi,
desfrutar de ser perdoado por uma carícia não propriamente maternal.
Um regaço para chorar,
mas um regaço enorme,
sem forma, espaçoso como uma noite de verão,
e ainda assim próximo, quente, feminino, ao lado de qualquer fogo…
Poder chorar ali coisas impensáveis, faltas que não sei quais são,
ternuras de coisas inexistentes, e grande dúvidas crispadas de não sei que futuro…
Uma infância nova, uma ama velha outra vez e uma cama pequena onde acabe por dormir,
entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se põe frouxa,
de raios que penetravam em jovens cabelos dourados como o trigo…
E tudo isso muito grande, muito eterno, definitivo para sempre,
da estatura única de Deus, mais além do fundo triste e sonolento da realidade última das coisas…
Um regaço ou um berço ou um braço quente ao redor de meu pescoço…
Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar…
O ruído das chamas no lar…
Um calor no inverno…
Um extravío suave de minha consciência…
E depois, sem ruído, um sonho tranquilo em um espaço enorme, com a lua rodando entre estrelas…
Quando ponho em um canto, com um cuidado pleno de carinho
– com vontade de dar-lhes beijos – meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases
- e fico tão pequeno e tão inofensivo, tão só em um quarto tão grande e tão triste,
tão profundamente triste!
Depois de tudo, quem sou eu quando não brinco?
Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações,
tiritando de frio nas esquinas da Realidade,
tendo que dormir nos degraus da Tristeza e que comer o pão doado pela Fantasia.
De um pai sei o nome; me disseram que se chama Deus, mas o nome não me dá idéia de nada.
As vezes, de noite, quando me sento sozinho,
o chamo e choro, e me faço uma idéia de um ele a quem possa amar…
Mas depois penso que não o conheço, que talvez não seja assim,
que talvez não seja nunca esse pai de minha alma…
Quando terminará tudo isto, estas ruas por onde arrasto minha miséria,
e estes degraus onde encolho meu frio e sinto as mãos da noite entre meus farrapos?
Se um dia viesse Deus a buscar-me e me levasse a sua casa e me desse calor e afeto…
Mas o vento se arrasta pela rua e as folhas caem sobre a calçada…
Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm nenhum sentido…
E de tudo isto apenas fico eu, um pobre menino abandonado…
Tenho muito frio. Estou tão cansado em meu abandono!
Vai buscar, oh vento, minha Mãe.
Leva-me pela Noite à casa que não cheguei a conhecer…
Volta a dar-me, oh Silêncio,
minha alma e meu berço e a canção com que dormia.”
Fernando Pessoa

Um comentário:

Talita disse...

fernando pessoa é simplesmente maravilhoso....
beijos, seu blog cada dia mais lindo..